NR-1 e orçamento 2027 · leitura de 4 minutos
A capacitação de liderança virou obrigação legal em maio de 2026 e continua sendo tratada como gasto opcional na planilha do financeiro.
A cena
Você fecha o orçamento entre agosto e novembro, manda para consolidação, e em dezembro vem o corte linear. A sua linha cai.
Ela não cai porque a diretoria despreza desenvolvimento. Ela cai porque, na planilha do financeiro, treinamento está classificado como gasto discricionário. A definição contábil é literalmente essa:
gasto que pode ser eliminado sem risco imediato ao negócio
Enquanto a sua verba estiver nessa coluna, ela vai continuar caindo. Todo ano.
Por que a defesa habitual não segura
O RH chega com nota de satisfação, horas treinadas e lista de presença. São dados de esforço.
Quem aprova o orçamento decide com dados de resultado, e quem assina o cheque não vai trocar de idioma. O financeiro quer saber três coisas: quanto sai, quando volta, e o que acontece se não fizer nada.
As cinco perguntas
Chegue na reunião com a resposta pronta para cada uma.
Investimento com retorno mensurável. Defina o indicador de negócio antes de pedir a verba, não depois. Turnover da área, retrabalho, produtividade, conformidade. Um indicador, não cinco.
Aplicação em 30, 60 e 90 dias, medida pelo gestor direto e não pelo RH. Satisfação mede se gostaram. Aplicação mede se mudou.
Aqui vai número. Substituir um colaborador custa de 50% a 200% do salário anual dele, conforme a senioridade. Calcule para os cargos críticos da sua área e leve o valor em reais. Uma saída evitada costuma pagar o programa inteiro.
Porque parte disso deixou de ser opcional em maio deste ano. É o próximo bloco.
Cortar pela metade costuma sair mais caro que cortar inteiro. Também está adiante.
A virada
Desde 26 de maio de 2026, a NR-1 obriga toda empresa com empregado CLT a identificar, avaliar e gerenciar riscos psicossociais dentro do PGR. Sobrecarga, assédio, metas abusivas, falta de autonomia, conflito. A norma exige ação documentada e capacitação de liderança.
Na prática, saúde mental no trabalho saiu da pauta de bem-estar e entrou na conformidade legal, ao lado de risco físico, químico, biológico e ergonômico. O que quase ninguém fez ainda foi tirar a consequência disso do orçamento.
Como a sua verba está hoje
Primeira a cair no corte linear.
Como ela deveria estar
A primeira sobe junto com o PGR e o PCMSO, ao lado do SESMT. A segunda você negocia.
Verba de conformidade não entra em corte linear. Verba de desenvolvimento entra. Se as duas estão na mesma linha da planilha, as duas caem juntas.
Na prática, o que o auditor vai procurar é registro. Inventário de riscos psicossociais dentro do PGR, plano de ação para o que foi identificado, e evidência de que a liderança foi capacitada para lidar com esses fatores no dia a dia. Pesquisa de clima sozinha não cumpre a exigência, e programa de saúde mental sem inventário de risco também não.
afastamentos por transtornos mentais concedidos pelo INSS em 2025, alta de 15,66% sobre 2024.
multa máxima por item autuado na NR-28, com majoração por reincidência e risco de elevar o FAP na folha.
da variação no engajamento de uma equipe é explicada pelo gestor direto.
Liderança despreparada deixou de ser assunto de RH. Virou passivo trabalhista e previdenciário.
O desperdício que ninguém mede
Estudos de referência estimam que entre 45% e 80% de tudo que é treinado nunca vira comportamento aplicado no trabalho. O termo técnico é scrap learning, aprendizado descartado.
A perda não acontece durante o treinamento. Acontece nas semanas seguintes, quando ninguém retoma o assunto e a rotina engole o conteúdo. Por isso, quando a diretoria mantém o evento e corta a continuidade, ela preserva a despesa inteira e joga fora o resultado.
Abre o grupo e entrega o conteúdo.
Faz o conteúdo virar comportamento nos meses seguintes.
Peça a verba já dividida nessas duas linhas. Quem apresenta valor único entrega ao financeiro a chance de cortar a metade errada. Quem apresenta dividido transforma a conversa em escopo, e escopo se negocia.
Dois números para calibrar
Investimento médio em treinamento por colaborador ao ano. No Brasil, cerca de 1,70% da folha.
Repare no que esse número diz sobre o momento. O investimento brasileiro ficou praticamente parado em relação ao ano anterior, caiu de 1,84% para 1,70% da folha, no mesmo período em que a NR-1 passou a exigir gestão de risco psicossocial documentada. A obrigação subiu, a verba não.
Serve de referência para o seu pedido. Se o seu número está muito abaixo da média, você tem argumento de defasagem. Se está acima, o seu trabalho é defender manutenção e não aumento.
E um detalhe que costuma passar batido: despesa com formação profissional de empregado é dedutível como despesa operacional no Lucro Real, pelo art. 382 do Decreto 9.580/2018. O custo líquido do programa é menor que o valor da nota. Confirme com a sua contabilidade e leve o número já ajustado.
O número que ninguém somou ainda
O DP tem esse dado e leva cinco minutos para levantar. Quase nenhuma diretoria já viu o total consolidado, porque ele nunca aparece junto em lugar nenhum. Está espalhado em rescisão, aviso, multa de FGTS e recrutamento.
Preencha com os números da sua área ou da empresa inteira. Nada é enviado, nada é salvo, a conta roda aqui no seu aparelho.
Se não souber de cabeça, o RH puxa por data de admissão e tipo de desligamento.
A fatia com causa gerenciável
R$ 0
Corresponde a 0 de 0 saídas. Quem entrou há pouco e pediu para sair raramente sai por salário. Sai por gestor direto e por ambientação, que são exatamente as duas coisas que treinamento e capacitação de liderança endereçam.
Leve estes quatro números para a reunião do orçamento. Não são projeção nem benchmark de mercado, são o histórico da sua própria empresa neste ano.
Esses números são o começo do pedido, não o pedido. O resto está na planilha: a separação entre conformidade e desenvolvimento, o indicador com meta, o ROI e as cinco perguntas da diretoria.
Um aviso para você não se queimar na reunião: não diga que essa fatia inteira seria evitada com treinamento. Ninguém consegue isolar isso, e o financeiro derruba o argumento na primeira pergunta. Diga que ela tem causa gerenciável e que o custo de tentar reduzi-la é uma fração do que ela já custou.
Antes da reunião
Toque para marcar. Se os seis estiverem prontos, a discussão deixa de ser sobre gosto e passa a ser sobre número.
0 de 6 prontos
Ferramenta
O checklist acima diz o que você precisa ter. A planilha faz o levantamento com você, calcula e monta a página que vai para a reunião.
Como usar, em uma tela, com uma linha de exemplo já preenchida.
A linha de exemplo é fictícia e vem preenchida só para você ver o formato esperado.
Preenchido pelas outras sete. É esta aba que vai para a reunião.
Uma linha por cargo. A coluna que muda o número é a de reposição, que a sua planilha não tem.
Some só o que já aconteceu no período, nunca projeção. É esse total que sobe para o Resumo.
Classifique linha a linha. É essa separação que tira a verba do corte linear de fim de ano.
Conformidade sobe junto com PGR e PCMSO e não entra em corte linear. Desenvolvimento é a parte que se negocia em escopo.
Defina o indicador antes de pedir a verba. Um principal basta.
Medição feita pelo gestor direto tem mais peso que medição feita pelo RH.
Aplicação em 30, 60 e 90 dias é o nível 3 de Kirkpatrick. Satisfação é nível 1 e não defende verba.
Modelo de Jack Phillips, com isolamento de efeito e custo líquido depois do imposto.
Os dois fatores já vêm conservadores. ROI de 15% defendido é melhor que 300% derrubado na primeira pergunta.
As cinco, com o que a diretoria quer ouvir e de onde tirar o número de cada uma.
A planilha tem ainda a coluna da sua resposta e a aba de onde tirar cada número.
De onde saiu cada número, para você defender se perguntarem na hora.
Leve esta aba impressa. Pergunta sobre origem de número é a que mais derruba pedido.
Envio a planilha e o checklist para o seu email.
Os números que você digitou na calculadora acima não vão junto. Aquela conta roda no seu aparelho e nada dela sai daqui. O único dado que sai desta página é o seu email.
Enviado.
A planilha chega em alguns minutos. Se não aparecer, confira a aba de promoções ou o spam, e me avisa.
Dúvidas frequentes
Sim. A fiscalização começou em 26 de maio de 2026, depois de um adiamento em relação à data original. A partir daí a autuação passou a ter caráter punitivo, não mais orientativo.
A norma exige que a empresa identifique, avalie e gerencie fatores de risco psicossocial dentro do PGR, com ação documentada. Na prática isso inclui capacitar quem gere pessoas, porque sobrecarga, assédio, metas abusivas e falta de autonomia são fatores que nascem e se resolvem na relação com o gestor direto.
Todas que tenham empregado sob regime CLT, independentemente de porte ou de setor. O grau de detalhamento do gerenciamento varia conforme o tamanho e o risco da operação, a obrigação em si não varia.
As multas da NR-28 vão de R$ 2.396,35 a R$ 6.708,08 por item autuado, com majoração por reincidência ou risco grave e iminente. Cada item descumprido é uma autuação independente. Há ainda o efeito indireto sobre o FAP, que encarece o RAT na folha de forma recorrente.
Na linha de saúde e segurança do trabalho, junto com o PGR e o PCMSO, e não na linha de desenvolvimento. Essa separação é o que protege a verba do corte linear de fim de ano, porque conformidade legal não é gasto discricionário.
É para você usar na sua reunião, do jeito que servir. Se quiser trocar ideia sobre a parte da continuidade, que é onde a maioria dos programas se perde, é só voltar para a conversa.
Nós não fazemos milagre, nós fazemos sentido.